Avimaria, Painho

Antes mesmo da virada para o ano de 2008, quando muitos babalorixás vaticinavam a regência por Exu, Obaluaê, Logun Edé, Oxumaré e um panteão de orixás tão diverso como um tabuleiro de baiana de acarajé, Bel de Oxum preferiu calar. E não fez isso por omissão, mas com uma justificativa capaz de convencer até a mais carola das evangélicas: “não posso falar sobre uma coisa que ainda não começou”. Alguns dias depois, consultas feitas e confirmadas, o baiano Bel de Oxum que já foi considerado símbolo nacional de pai-de-santo, uma espécie de oráculo religioso, capaz de mobilizar uma equipe de reportagem do Rio Grande do Sul para uma consulta em Salvador só para saberem o time campeão gaúcho naquele ano, dava o veredicto: “o ano é de predominância de Ogum com influência de Xangô”.

Palavra de quem já foi jurado de programa de auditório, cantor e compositor, confeiteiro de bolo e até policial militar, mas encontrou-se com a fama depois de inspirar uma caricatura audiovisual criada por Chico Anysio, no que pode ter sido o personagem mais engraçado de sua carreira de humorista. Como o Painho, ele também está fora da mídia há mais de 10 anos, um incômodo exílio da notoriedade pública.

O candomblé de pai Bel de Oxum – como os vizinhos se referem - é uma casa aconchegante, onde ele faz questão de ser um anfitrião despojado e gentil. Chegar até seu terreiro, numa das muitas ribanceiras de Paripe, no subúrbio ferroviário de Salvador, é aventura que exige mapa e um veículo com tração nas quatro rodas. A rua esburacada como se tivesse sido palco de guerra, alvejada por granadas do descaso, é o oposto da brancura com que o muro se revela no alto da Gameleira. Bem perto, uma igreja batista Deus é Fiel, que nunca recebeu nem a metade dos políticos, artistas e empresários, de Salvador e de outras capitais brasileiras, que vão ao terreiro em busca da discrição.

Bel não renega a inspiração, seu jeito realmente lembra aquela coisa mole com que Chico Anysio interpretava o Painho. “Vamos entrando, vamos tomar um cafezinho”, convida. O tratamento intimista é o mesmo que notabilizou a personagem que falava um “aviiiimaria” arrastado e ficava com os pezinhos descansando em almofadas. Dos quase 200 tipos cômicos criados, Chico Anysio declarou em mais de uma oportunidade que Painho era o seu predileto. Ruy de Todos os Santos atendia celebridades em seu terreiro (do mesmo jeito que o babalaô real) e ficou marcado pelo bordão: “Afffeee, tô morta. Eu sou doido por essa neguinha”. Bel de Oxum apenas acha exagerado o fato de seu clone “só pensar naquilo”.

 

Contato imediato

Foram poucos minutos de contato para o comediante captar o estilo solto do babalaô. Este apresentava o programa Cruzeiro e você no caminho dos orixás, nas madrugadas da rádio Cruzeiro AM, no final da década 70 e início dos anos 80. Nunca acatou sugestões para fazer a produção gravada, por causa da hora inconveniente. Preferia sempre ao vivo para poder debater com os ouvintes. Chico Anysio chegara para uma entrevista no programa anterior e terminou se impressionando com o despojamento com que o pai-de-santo tratava dos temas da religião.

Na capa do LP de cânticos afro Xirê aos Orixás, lançado há uns 25 anos, Bel está sentado em uma poltrona de cana-da-índia, numa posição refestelada característica do Painho. Ao seu lado, as ekedes, que viraram referência de discípulos, mas cujo nome foi subvertido. Bel de Oxum era seguido por uma abian (nome dado a uma pré-noviça), mas Chico Anísio entendeu a expressão como cunhã. Hoje, a menina que inspirou o humorista já é mãe de família.

O babalorixá popstar virou jurado de programas de auditório, como o de Tia Arilma, e gostava de curtir os antigos carnavais de escolas de samba em Salvador fazendo desfiles de alegorias. Passava oito meses aprontando uma fantasia com o objetivo de ganhar o concurso.

 

Glória de previsões

Bel já teve seus momentos de glória por antecipar, em páginas de jornal, os acontecimentos funestos do futuro. Em janeiro de 1985, previu a morte do presidente Tancredo Neves, mas não dizendo secamente que poderiam encomendar o caixão para o embarque no dia 21 de abril do mesmo ano. Ele respondeu que havia um egum (espírito da morte) no destino do mineiro, e que isso poderia ser desfeito apenas com um esforço espiritual muito grande.

Num jornal de 1° de janeiro de 1989, alertou para os perigos com o presidente da Assembléia Constituinte Ulysses Guimarães. O parlamentar resistiu até 12 de outubro de 1992, morrendo em um acidente de helicóptero, só que a credibilidade do babalorixá como prestidigitador não foi abalada. Em novembro de 1982, um jornal gaúcho procurou seus serviços para indicar o campeão de futebol do estado daquele ano e a manchete de esportes terminou saindo como se fosse para colocar a faixa no Internacional antecipadamente. E no final do certame, o Colorado realmente ganhou provando que os búzios de Bel são o melhor sistema tático já experimentado nos gramados brasileiros.

Bel é de Oxum, mas parece protegido por todos os orixás. Fez uma peregrinação pelo interior da Bahia, antes de se tornar o líder do concorrido terreiro Ylê Asé Omin Arim Masun (numa tradução livre, “as águas que fluem sem cessar”). Nos afluentes da religião, Gonçalo Oliveira deixou o trabalho como técnico em eletrônica consertando rádios na cidade de Castro Alves, onde nasceu, e foi conduzido pela correnteza do candomblé desde os 15 anos, quando fez a cabeça para Oxum no terreiro de pai José Fabriciano, em Muritiba. Morou em Santo Antônio de Jesus antes de migrar para Salvador e obter o respeito como divulgador do culto. Depois de receber o deká (um canudo que o torna apto), ainda precisou de mais sete anos de obrigações até abrir o próprio terreiro na Capelinha de São Caetano.

Bel foi elevado a membro fundador da Federação de Cultos Afros da Bahia, com a carteirinha que ainda guarda com o número 0027. Em quase 50 anos na religião, ele garante já ter iniciado mais de 100 filhos de santo. E o trabalho continua. Amanhã, precisa fazer um ebó que prometeu para um sargento, de tarde tem oferenda.

 

Bolos e presépios

Gonçalo Oliveira é policial da reserva e garante que sua renda é praticamente toda do soldo de primeiro sargento. Na época em que estava na ativa, tinha uma obstinação por presépios. No Natal, suas criações adornavam a capelania da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros de Salvador. Atualmente, completa o orçamento fazendo bolos confeitados e bufês sob encomenda. Tem uma coleção de fotos de seus banquetes ornamentais, uma espécie de portifólio gastronômico para agradar os paladares, já que o espírito ele tem a receita de satisfação.

O babalorixá tem orgulho em exibir fotos da manifestação de Oxum em uma indumentária amarela, com um véu metálico cobrindo o rosto. Ele mostra o retrato e fica perguntando quem é a moça que está por trás da fantasia. Questiona e dá como pista o fato de qualquer um ali na sala da sua casa já tê-la visto. Depois de alguns minutos de insistência sem que a moça seja reconhecida, ele enfim se entrega. “Sou eu mesmo, rapazes”, comemora. “Vejam que coisa impressionante como o colo cresce”, vibra, apontando para o volume dos seios.

Depois de fazer uma visita recente ao terreiro, o paulista Marccelus Bragg, um dos fundadores do Grupo Gay da Bahia, escreveu que Bel de Oxum “continua o de sempre: inteligente, extrovertido e amado”. 

No próximo dia 10, quando completar 63 anos, Bel vai continuar aparentando a jovialidade em cabelos que insistem em não ficar brancos. “É que minha Oxum é menina, é jovem”, justifica, sem falar em tinturas ou colorações.

Bel de Oxum:”Vamos entrando, vamos tomar um cafezinho”

Sargento reformado da PM, o babalorixá Bel de Oxum inspirou o personagem de Chico Anysio e sente falta de estar na mídia

 

Pablo Reis

Bel não renega a inspiração, seu jeito realmente lembra aquela coisa mole com que Chico Anysio interpretava o Painho