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Papai Noel existe |
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A bem da verdade, por um pressuposto jornalístico chamado factualidade, esta reportagem ficaria melhor posicionada se publicada no domingo passado, antevéspera de Natal, portanto com todos os assuntos convergindo para temas natalinos. Mas quão injusto seria tirar o gorro do Papai Noel justamente antes de sua glória maior que é o 25 de dezembro. Papai Noel existe, sim, e dá plantão de até cinco horas por dia distribuindo conselhos e sorrisos para fotografias, ouvindo pedidos de uma infância que está tão distante do presente sonhado como uma rena do nariz vermelho está longe de aparecer voando no Largo da Mariquita. Durante todo o final de ano, o velhinho faz seu trabalho e depois despe o conjunto escarlate bordejado com algodão branco, veste uma calça jeans surrada e vai para a casa simples de três cômodos, na invasão Paulo Afonso, em Pernambués. É nesse período de 45 dias entre meados de novembro e a última semana de dezembro que Hamilton Macedo consegue ganhar o sustento do ano todo. Trabalhando como o bom velhinho de aluguel, ele arrecada R$6 mil entre amabilidades na praça principal do shopping e a apresentação com o coral das crianças da prefeitura de Salvador. No resto do ano, é aposentado de sacar salário mínimo no fim do mês. Há 13 anos, ele realiza o trabalho cada vez menos confortável em alimentar certas ilusões, sua cota de fantasias foi ficando pelo caminho. Quando trabalhava num shopping do centro da cidade, ficava constrangido em ouvir crianças falando que não tinham recebido presentes no ano anterior. “Eu ia fazer o quê, pegar o celular e fingir que ligava para a minha fábrica de brinquedos e depois avisar que ela tinha pegado fogo?” As cartas para o Papai Noel continuam chegando, e muitas rabiscadas em caligrafia torta de pré-escola e uma lógica cartesiana: “Eu, Duda me comportei muito bem esse ano e queria ganhar um foguete, um pônei e um palhacinho”; “querido Papai Noel, por favor, queria ganhar um vídeo game, por favor, realize meu sonho”. E os pedidos se sucedem, raros em envelopes lacrados, muitos escritos em folhas de caderno, por crianças que saíram de bairros periféricos para a metrópole de seus desejos, que é justamente a casa do velho e cada vez mais inconformado Noel. Uma residência cercada de pinheiros enfeitados com bolas e luzes no centro comercial climatizado. De todos, o mais comovente pedido ouvido por Hamilton neste ano foi de uma criança que se dirigiu a ele no ouvido e disse que não queria nada material, “só um pouco de paz em casa, pelo menos na noite de Natal”.
Monólogo Papai Noel filósofo rascunhou anotações sobre seus anos de trabalho e entregou o arrazoado para um teatrólogo, pedindo para escrever o monólogo O Diário de Papai Noel. A única exigência dele é que incluísse um personagem psicólogo, com uma voz em off, que explicasse o tipo de frustração de uma criança que se sente enganada quando não recebe presente. Hamilton quer também uma explicação para si mesmo, para o motivo de que tanto adulto procure por ele para uma foto. Imagina que a criança dentro do ser humano teime em jamais ser calada. Ele faz a pergunta-padrão sobre o desejo de presente e uma menina com aparência de curiosa responde, mas logo em seguida questiona o motivo de ele não ter pedido o endereço. “Papai Noel não precisa de endereço, eu tenho um radar comigo”. O radar que Hamilton desenvolveu foi para as classes sociais que visitam seu trenó feito em madeira, forrado com veludo vermelho. Ele treinou a sensibilidade para saber o rendimento de determinada família a partir do aspecto da máquina fotográfica. Aqueles que apontam equipamentos digitais estão num patamar cujos filhos provavelmente vão ter a meia na lareira premiada com um mimo. Outros usam modelos considerados ultrapassados, as chamadas máquinas pretas, que funcionam com filmes fotográficos. A todo momento, Hamilton relembra sua teoria, apontando as famílias por suas câmeras. “Olhe a máquina, olhe a máquina”, insiste ele, quando quer mostrar que aquela mãe com dois filhos vem de origem humilde. Essa percepção antecipada modela o discurso que o velhinho vai adotar com cada garoto que pede um carrinho a controle remoto ou a menina que sonha com a boneca que fala 800 palavras. Seu Hamilton virou um obstinado pesquisador de preços em lojas de brinquedos, porque seu trabalho exigiu. Quando um moleque revela no ouvido do Papai Noel que seu sonho é ter determinada bicicleta, ele já mentaliza o valor de R$130 e, em seu cálculo instantâneo, decreta: esse aí não vai ter um Natal feliz. “Mais de 80% querem uma bicicleta, e mais de 80% destes não vão ganhar uma bicicleta”, resume, mostrando uma voz lamuriosa que insinua como deve ser frustrante ganhar a vida como Papai Noel em um país de profundos contrastes sócio-econômicos. Pai de seis filhos em dois casamentos, avô de oito netos, Hamilton fica bem arrumado no vermelho intenso e caprichado da fantasia providenciada pelo shopping center. Ele mesmo se diz fotogênico e simpático, qualidades que acha decisivas para sua longevidade na profissão. Ele inspira confiança também por não ter nada de postiço, é original em barbas e cabelos longos e alvos. Só que não é daqueles idosos que já congelaram a libido na frieza de um pólo norte de sentimentos. Ele é capaz de sutis galanteios como dizer àquela jovem morena, aparentando 21 anos, de sorriso destacado nos lábios grossos que daquele jeito seu trenó terminaria virando uma agência de modelos.
Missionário da fantasia No retorno para seu camarim, em fim de expediente, ele vai atendendo as crianças, já terminou o turno, mas está convencido de que ser missionário da fantasia é profissão de tempo integral, ainda mais quando está paramentado em vermelho, com direito a cajado dourado e tudo mais. Papai Noel é torcedor do Vitória e faz piada com um pai que pede foto da filha, vestido com camisa do Bahia. As vendedoras de loja se aglomeram implorando pela foto que será a última da temporada 2007. “É que eu não tive infância”, justifica-se Sueli Andrade, 28 anos, antes de dar um abraço na cintura de geometria inflada do Noel. Ele repete sua insistente versão sobre o assédio: “eu sei que meu charme é irresistível”. A Mamãe Noel Cinara é só felicidade porque ganhou o presente que tanto pediu: o fim do expediente. Ela já testemunhou pais insensíveis dizendo aos filhos, que nem completaram cinco anos, que Papai Noel não existe, mesmo com as criancinhas diante de um legítimo, ao alcance das mãos que puxam a barba natural cultivada há mais de 10 anos. O ator Hamilton, que teve a chance de estrear na Globo no fim da década de 60, a cada ano precisa encenar melhor a figura dócil e amável porque está a um passo da desilusão. Sai de cena para animar uma festa particular e só depois confraternizar com a mulher em casa, na invasão Paulo Afonso, em Pernambués. Entre tantos momentos frustrantes, ele se sente gratificado quando ouve frases do tipo: “eu sei que não é você que dá o presente, mas mesmo assim eu te amo”. Ou então quando recebe a visita de uma criança de 103 anos, como o velhinho que fez questão de tirar uma fotografia e lembrar dos sonhos de infância. É um consolo saber que Papai Noel existe e que, no ano que vem, tem mais. |
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Papai Noel:”Mais de 80% querem uma bicicleta e mais de 80% destes não vão ganhar uma bicleta” |
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Ele se chama Hamilton Macedo, mora em Pernambués e já perdeu a esperança de que toda criancinha ganhe uma bicicleta no Natal
Pablo Reis |
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Já terminou o turno, mas está convencido de que ser missionário da fantasia é profissão de tempo integral, ainda mais quando está paramentado em vermelho, com direito a cajado dourado e tudo mais |